quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Tamanho não é documento !

[...] e depois de um longo minuto de silêncio contou-nos uma parábola simples, quase ingênua, mas que tocou as entranhas dos meus dedos:
 - Certa vez houve uma inundação numa imensa floresta. O choro das nuvens que deveriam promover a vida dessa vez anunciou a morte. Os grandes animais bateram em retirada fugindo do afogamento, deixando até os filhos para trás. Devastavam tudo o que estava à frente. Os animais maiores seguiam seus rastros. De repente uma pequena andorinha, toda ensopada apareceu na contramão procurando a quem salvar.
 "As hienas viram a atitude da andorinha e ficaram adimiradíssimas. Disseram: 'Você é louca! O que poderá fazer com um corpo tão frágil?'. Os abutres brandaram: 'Utópica! Veja se enxerga a sua pequenez!'. Por onde a frágil andorinha passava, era ridicularizada. Mas, atenta, procurava alguém que pudesse resgatar. Suas asas batiam fatigadas, quando viu um filhote de beija-flor debatendo-se na água, quase se entregando. Apesar de nunca ter aprendido a mergulhar, ela se atirou na água e com muito esforço pegou o diminuto pássaro pela asa esquerda. E bateu em retirada, carregando o filhote no bico.
"Ao retornar, encontrou outras hienas, que não tardaram a declarar: 'Maluca! Está querendo ser heroína!'. Mas não parou; muito fatigada, só descançou após deixar o pequeno beija-flor em local seguro. Horas depois, encontrou as hienas embaixo de uma sombra. Fitando-as nos olhos, deu a sua resposta: 'Só me sinto digna das minhas asas se eu as utilizar para fazer os outros voarem'."
 No momento seguinte, após inspiração profunda e penetrante, o Vendedor de Sonhos disse a mim e a meus amigos:
 - Há muitas hienas e abutres na sociedade. Não esperem muito dos grandes animais. Esperem deles, sim, incompreensões, rejeições, calúnias e necessidade doentia de poder. Não os chamo para serem grandes heróis, para terem seus feitos descritos nos anais da história, mas para serem pequenas andorinhas que sobrevoam anonimamente a sociedade amando desconhecidos e fazendo por eles o que está ao seu alcance. Sejam dignos das suas asas. É na insignificância que se conquistam os grandes significados, é na pequenez que se realizam os grandes atos.


O Vendedor de Sonhos - Augusto Cury

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