Como todos sabem, homens não são muito providos de inteligência
natural. Apaixonados, então, tornam-se mais abobados ainda. Quando
Alechandre viu Sessília pela primeira vez, seus olhos foram
imediatamente fisgados. Nada como um belo par de pernas, cabelo chanel,
mamilos querendo rasgar uma blusa justa e um sorriso sugestivo para ruir
toda a racionalidade de um homem. Quando Alechandre encontrou Sessília
pela primeira vez na pista de dança daquele barzinho, ele poderia jurar
que todas as bocas se calaram, todas as estrelas se apagaram, o mundo
todo caminhou na ponta dos pés e todas as rádios interromperam suas
programações só para tocar The Killing Moon.
Mas enfim, amar é decretar uma chacina de neurônios.
Na
condição de melhor amigo da vítima, fui testemunha privilegiada do
processo de derrocada de Alechandre. Lembro-me muito bem de seu discurso
derramadamente sentimental funcionando a todo vapor, comentando todas
as suas afinidades com Sessília. Disse que ela lia Borges, Poe e
Leminski; que seu jogo preferido do Atari era H.E.R.O.; que tinha a
coleção completa de Sandman; que gostava de comer pão com manteiga e
geléia de uva; que quando criança sonhara em ser chacrete, arquiteta e
pintora antes de se tornar advogada; que gostava de yakult, Edward Munch
e física quântica; que desistira de ler Ulisses porque cansava demais
ficar carregando aquele calhamaço todo no ônibus; que seus ídolos eram
Gaudi, Carl Barks e Clarice Lispector; que o que mais lhe doía na vida
era a sensação de desamparo e vazio no peito toda vez que um amor
acabava, e principalmente a sensação de pensar, “mas acabou de novo?”;
que cantarolava Arnaldo Baptista enquanto tomava banho (“hoje percebi que venho me apegando às coisas materiais”);
e que ao ouvi-la cantando justamente aquela música seu coração se
encheu de ternura e seus olhos ficaram úmidos. E aí constatei, porra, o
cara tinha caído direitinho na armadilha.
E depois de tudo isso,
pra culminar, ele me diz: “Auberto, como é que nunca nos encontramos
antes?”. E aí fiquei pensando, quantas vezes já ouvi na vida variações
em cima desta mesma frase? “I look at you and what I see is me”,
cantava o Pink Floyd, se é que minha memória pop não está enganada.
Todos que se apaixonaram pelo menos uma vez na vida já passaram por essa
fase de deslumbramento e assombro. Pena que quase sempre ela passa.
Mal
sabia meu amigo que, a partir do momento em que seus olhos se
umedeceram de ternura, começava ali sua derrocada na cadeia evolutiva, e
que aquele rapaz promissor, um jovem jornalista recém-formado, em
apenas duas semanas se veria transformado em um Neanderthal apaixonadão e
completamente aparvalhado, capaz de brincar de mal-me-quer com um
Häagen Dazs de cheesecake enfiado no meio da testa, com o sorriso mais
alegre e estúpido do mundo estampado em um rosto subitamente repleto de
espinhas.
Amar não é para amadores.
[...]
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